Divagações de uma mente artística…

Já me fez confusão o número de telas que tenho paradas, mas deixou de fazer, entendi que nem sempre tenho a inspiração para continuar o trabalho que estava a produzir em determinado espaço/tempo. Ao inicio, pensava que era falta de motivação ou vontade, mas não, estava errada, com o tempo apercebi-me que eu volto a pegar nelas. Existe outra explicação.

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Abstracção incompleta (acrílico), ao completar revelo as cores (pancas, não liguem!)
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Abstracção (óleo), novamente, revelo quando estiver pronto.

Não pinto por pintar, preciso de sentir, estar na disposição – creio que há algo de espiritual na arte, quando a fazemos de coração.

O artista é um ser emotivo e criativo, logo, se está inverno, como posso pintar as belas flores de verão? Falsifico o meu estado de espírito? Engano as minhas emoções? Finjo? Faço de conta? Daí, andar com a minha “grande empreitada” por fazer à quase um ano, tendo em conta que no inverno não “senti” este quadro preferi esperar até a primavera para o fazer florir novamente.

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Projecto em andamento, Trees (Árvores), acrílico. Ainda muito a fazer (e… a foto ficou tirada ao contrário)
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Do mesmo projecto Trees, irá ocupar um espaço de 3m 60cm numa parede. Ainda tenho muito a trabalhar…

Para mim, as composições tem que estar em concordância, as cores, haver equilíbrio e isso só é possível quando sentimos. Claro que existe a arte de “traço livre” mas não é bem dessa que falo (e mesmo no traço livre será assim tão livre? isto serão outras questões).

Quando aprofundamos as questões ligadas às artes plásticas, descobrimos um universo de expressões, um falar com a obra de arte, ter uma conversa séria e, estar “na mesma onda”. Criar, exige diálogo, e daqueles bem atentos do que estamos a passar para a tela – estamo-nos a encontrar. Acreditem, que os meus maiores diálogos e dissertações estão nas minhas obras de arte, às vezes tenho pena (ou não) que ninguém as compreenda. Ambíguo, este sentimento mas reconfortante ao mesmo tempo.

Nestes diálogos, navegamos em pensamentos pelo renascimento e humanismo, vamos aos ambientes cénicos e tenebrosos do barroco, aproximamo-nos do realismo e naturalismo e quebramos com os últimos, quando entramos em questões mais contemporâneas.

Questões estas, que estão ligadas ao sentimento do ser, intuição, dor, oscilações, entendimento, percepção e não à cópia de tudo o que nos envolve – um olhar para dentro, para os estados de alma, artista enquanto ser individual que sente e tem a percepção do que o rodeia.

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Da série de “Experiências em aguarelas” que andei a praticar (muito a aprender, neste campo).

O meu ser oscila por todas estas “eras” e diferentes periodos, e vagueia quando está a criar. Daí, seja natural que se estou a criar uma obra abstracta e, se estou num estado realista, aquela obra vai ficar quietinha no seu canto até eu encontrar a altura certa para lhe dar continuidade.

Até porque, dependendo da obra, existe muito estudo da minha parte para chegar ao resultado pretendido/que tenciono atingir, e, o simples “não estar no humor” pode acabar uma obra que me consumiu imenso tempo.

No momento actual, vagueio entre dois estados, o que me permite dar continuidade à obra das flores “Trees“, quando o sol se lembra de nos visitar e, o meditativo, aquele que me contemplo em períodos de nebulosidade e se projectam nas mandalas/iluminuras, são mais introspectivos.

Deixei de me preocupar com os projectos a meio, porque não é um problema, eles vão ser acabados mas devidamente inspirados. O engraçado desta questão, é que todas estas reproduções abstractas, realistas, naturalistas, expressionistas, simbolistas, etcristas, são visíveis na pintura e na escrita simultaneamente, que as acompanham.

Gostaria de saber se passam por processos semelhantes e que partilhassem um pouco das vossas experiências se quiserem.

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14 thoughts on “Divagações de uma mente artística…

  1. Irina, tenho-te a dizer que adoro quando fazes essas divagações. Admiro-as.

    Sentir, compreender, processar, analisar, pintar e escrever – é fluido.

    Já eu, estou num processo de desinspiração, mas esse teu texto, abriu-me rumos a umas ideias. Obrigado.

    1. Obrigado nelson.
      São fases, cada qual, com seu lugar muito importante.
      Fico feliz por saber que te tenha aberto horizontes a novas ideias 🙂
      Eu é que agradeço.

  2. Que artista! O que dizer da aguarela? Soberbo!
    Quanto à reflexão que propões, “deixar a meio” é a minha especialidade eheh nenhum dos meus textos são escritos de uma só vez! Há um processo de amadurecimento da ideia. Se quando o reler daqui a algum tempo não gostar, então é porque se calhar não era assim tão bom. Aliás, este último artigo (um lembrete para o caso de não te recordares, escrevi sobre Havana) estava na gaveta, a meio, já desde Setembro!

    1. Muito obrigado Miguel.
      Li o teu ultimo artigo sobre Havana, não sabia que tinhas esse artigo em pausa e voltado a pegar nele, está ali um pensamento tão fluído e sentido, como são todos os teus artigos. Mas lá está, para voltar ao momento, e sentir “aquele sentimento” genuíno e verdadeiro, ás vezes, deve ser necessário “pôr em pausa” da realidade que nos absorve no dia a dia, ou passar para algo diferente e, só depois, conforme dizes, amadurecendo a ideia, voltar de novo lá. Acho que realmente tudo se prende à inspiração, conforme se esteja inspirado naquele momento.
      A técnica da aguarela dá-me uma verdadeira volta à cabeça, tenho muito a melhorar neste campo, mas foi a minha terceira ou quarta aguarela, por isso, só com a pratica vai levar a uma melhor concretização (assim que haja tempo, espero).

  3. Irina, isto daria uma longa conversa…
    …mas que certamente levaria a uma conclusão: todos somos diferentes e por isso, todos os modos de encarar a criatividade, de lidar com essas necessidades estão certas.
    Agora, nos meus anos ofereceram-me um livrinho que me parece muito interessante “O livro dos ressignificados” de João Doederlein (no instagram é “akapoeta”) em que no seu ressignificado de “arte”, muito interessante no todo, termina dizendo “Arte…é o ofício dos corações inquietos”.
    Adorei esta frase, porque ela tem sido a minha vida!
    E é a sua, e será sempre a sua, e tudo vale para para acalmar essa inquietude, essas revoluções, essa procura, desde que tudo seja feita com prazer, e de que forma for, e com que materiais for, e…e…e….e..!
    Eu sinto-me feliz por sempre ter tido esta inquietude dentro de mim e hoje ainda estar bem viva! O que sou a ela devo!
    Bj e um dia em pleno!

    1. Sim, cada pessoa tem as suas formas de lidar com os processos criativos, e são todos válidos. Esta foi apenas uma conclusão que cheguei, depois de analisar o porquê de me estar a ocorrer determinadas situações (neste caso, a quantidade de obras que tenho por acabar). Tenho muito esta tendência de querer perceber qual é o meu papel neste processo criativo e, perceber porque faço o que faço, saber que estou envolvida mas também sair um pouco do envolvimento e tirar conclusões, como espectadora ou como uma terceira pessoa (quando tal me é permitido).
      Fui ao instagram, estive a ver o perfil “akapoeta”, tem temas bastante interessantes, será alguém a seguir, com frases com enorme conteúdo e para reflexão.
      Creio que a frase que a Dulce usou tem uma certa razão, pois tem sido na Arte que me tenho encontrado, acalmado, respondido a muitas questões – estou num ponto que já não vivo sem ela. É o meu diário, uma espécie de cúmplice. Dediquei-me mesmo de alma e coração a esta expressão, que tive tantos anos adormecida, agora quero aperfeiçoa-la, espelhar os meus reflexos através dela.
      Ah, e eu gosto tanto destas conversas. Sim, porque são expressões onde há inúmeros pontos de vista e em que cada caso tem suas manifestações.
      Um beijinho grande Dulce, e muito obrigada pelo seu contributo 🙂

  4. Good Lord, You are sooooo talented, Irina!!! And for whatever it’s worth, my process is the same. Some of my paintings take years just because when they stop speaking to me I put them down and pick up something else. I’ll often be working on 2 or 3 at a time for that reason. Like You, I learned to stop judging/worrying about it. There ALWAYS comes the day when I pass by one of my “in the process” works and it reaches out and grabs my heart once again. It’s a relationship! I know many artists and everyone seems to have their own way. As many processes as styles of art! And wow! It was lovely scrolling down Your works in progress!!! Thank You for sharing and Cheers!!! 🙂

    1. Thank you so much Katy. It is so important to me to know all this feelings related to art, understanting them, understanding other diferent processes.
      We learn so much sharing and earing other great artists it’s so greatfull.
      Yes, it’s like you say, we build a relationship with our works we have to feel it 😊
      Thank you so so much Katy for letting know we have the same process. It’s so good to know, I love your works, there is so much felling on them. I admire the way you express yourself and the world around.
      Cheers 🤗

      1. My pleasure and Thank You as well, Irina!!! I’m like You. It gave me so much comfort when I started hearing that there isn’t a “right” way to do art and that there are many different processes. I used to go through phases where I thought perhaps I wasn’t an artist at all because I’m not driven to paint every waking hour! 🤣 And Thank You more than I can say for Your kind words. Have a great one!!! 🤗💖😊

  5. I like este artigo.
    Trabalho Ruiz Custo
    O trabalho mistura as cores primitivas das eras passadas impregnadas também do presente; Através das cores e traçados, dando origem a uma série de gravuras evocativas e criativas de ambientes naturais e artificiais; Mostrando uma visão objetiva da vida que é subjetiva através da personificação formal em reproduções ou imagens, que recriam figuras emolduradas dentro do mesmo quadro de representação formal e abstrata.

    1. Fico muito grata pelo seu comentário Ruiz Custo.
      É bom encontramos neste espaço partilhas de pensamento e sentimentos quando criamos. Todas as nossas obras de arte tem tanto a contar, elas falam por nós, e creio, que é tão importante partilharmos uns com os outros, artistas plasticos e outros que se encontram no meio das artes (poesia, escrita, pensadores, etc).
      É bom, saber e, ter conhecimento do seu tabalho, partilharmos estas informações é sempre enriquecedor.
      Muito obrigado.

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