Dualidade.

Ser de dualidade,
ter em mim o querer falar,
mas no entanto guardo e deambulo,
num gosto absurdo pelo silêncio,
ao ponto de conseguir sentir,
o interno batimento,
como se de um ritmo que me marcasse,
neste compasso, tão, tão profundo,
que me leva a uma quase exclusão.
Ambiguidade de querer falar,
mas pouco acertar,
tímida e ponderada,
comunicar não é um forte,
em mim,
falha nas palavras,
de muito a querer dizer,
mas irá alguém entender?
Tento falar,
pensar para acrescentar,
entender ou ajudar,
saber escutar.
Navegar nos seus significados,
decifrados, outros,
esquecidos e postos de lado,
de causas perdidas,
ou mesmo enganados.
Escuto.
Ouço, observo, analiso, basta…
Então,
retraio-me no silêncio,
porque é um conforto,
e mergulho na profundeza,
no azul turquesa,
que encontro em mim.
Meu fundo é desta cor.
Já num olhar distante,
observo o horizonte,
um para lá, sem fim.
E penso…
As minhas melhores palavras,
são as que ficam por escrever,
por dizer,
manifesto-me na acção,
causa a reacção,
da minha expressão,
que ganha manifestação,
no agir,
assim como a pintar,
ou tocar,
Talvez…
Talvez seja essa,
a possível explicação,
para uma melhor compreensão,
desta dualidade,
da comunicação que há em mim.

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10 thoughts on “Dualidade.

  1. Continuas nas tuas viagens, das quais eu gosto bastante.
    Essa tua introspeção, é algo que te irá acompanhar sempre. Eternos debates “é no silêncio que me encontro” mas, és uma excelente comunicadora. Vai, mas volta, não fiques para sempre lá.
    Cumprimentos.

  2. Suas palavras tão belas talvez tenham origem no silêncio que cultiva e na ambivalência entre falar e não falar. Palavras guardadas ganham força e saem na hora e na intensidade necessárias. Acredito que o silêncio é amigo do som, não opositor. 🙂 ❤

  3. Todos temos estas dualidades dentro de nós.
    Identifico-me bastante com este poema, porque sempre gostei mais de silêncio e de escrever do que de falar.
    Durante muitos anos isso causou-me alguns problemas, porque os outros não entendiam e faziam leituras falsas desse comportamento. Mas a passagem dos anos é maravilhosa porque, não só equilibramos um pouco essa “dualidade”, como ultrapassamos esse mal estar e naturalmente sentimos: sou como sou, quem não gostar paciência!
    E o mais interessante irina, é que, hoje, pelo facto de sempre ter sido mais observadora e silenciosa que outros, a minha opinião é importante e quantas vezes solicitada.
    A nossa pequena diferença…é que a minha profundeza guarda muitos tons de verde!
    Parabéns pelo poema!

    1. Também me deparo com alguns problemas por ser assim, os quais agora, tenho vindo aceitar. Ser distante, estar pensativa, algo me atormentar ou estar triste são leituras que tenho que esclarecer que não se prende a essas questões, de todo. Até porque sinto-me bem e não triste. E, é exactamente isso, é ser como somos, sentirmo-nos bem isso é o mais importante.
      E o verde, Dulce, é uma cor maravilhosa, com toda a sua natureza e esperança e carregada de significados tão positivos.
      Um beijinho grande, e muito obrigada.

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